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ANA PAULA MAZZUCOPsicologia • Psicanálise
Capa do texto Melancolia e perda da fala, de Ana Paula Mazzuco
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Escritos • Reflexões

Melancolia e perda da fala: discurso do luto gritante no sujeito diante da perda do objeto amoroso.

Ana Paula Mazzuco

Nota de leitura

Este texto aborda temas relacionados a sofrimento psíquico, dissociação, perda e tentativas de suicídio. A leitura pode ser sensível para algumas pessoas.

Talvez tudo tenha começado com uma cena de um filme que passava na TV. Se tratava de uma criança de 6 anos, que ao assistir uma cena de um beijo entre um homem e uma mulher, dirigiu-se até seu pai para imitar a cena. Como essa cena não se concretizou, beijar a boca do pai não foi possível, pois houve a interdição da mãe que entendeu, que se tratava de uma reprodução do que havia se passado na TV. Ao escutar essa afirmação da mãe, a criança sentiu vergonha, culpa, medo de ser rejeitada, e se calou, restando apenas a fantasia daquela cena. Não era para o pai ficar sabendo das “segundas intenções” da garotinha, então ela saiu de cena e pensou: e seu eu tivesse beijado meu pai como no filme? Será que ele não gosta de mim por não ter deixado eu concluir a cena? Então vou criar do meu jeito, para não ter que passar pela frustração que eu passei... Assim pensou! As fantasias que envolvia aquela cena foram surgindo no imaginário da criança por dias. E na fantasia era tão bom, porque nesse lugar, da fantasia, ninguém atrapalhava, era perfeito, exatamente como essa criança queria.

Portanto, houve uma morte, uma perda de um objeto amado. Essa criança, não poderia mais contar com esse amor ideal. Freud discorre em Luto e Melancolia, para destacar o traço melancólico: “o objeto não é algo que realmente morreu, mas que se perdeu como objeto de amor.

No entanto, toda aquela energia investida no objeto de amor, tinha que se deslocar para um outro objeto. Foi a forma que a criança elaborou o luto do amor ideal não alcançado.

Ao frequentar a pré-escola, ao se deparar com um menino, em que a maioria das meninas desejava, essa criança também passou a se interessar por este. Essa fixação, se assim posso dizer, se perdurou até a adolescência.

Assim como as idealizações da cena de amor com aquele pai, que não aconteceu, essas mesmas idealizações se repetiram com esse objeto eleito por ela. Não houve muito contato com esse menino, além dos pais de ambos serem colegas. Na imaginação dessa menina, ela não poderia demonstrar o quanto gostava dele, pois o pensamento e a sensação que lhe advinha, era o possível corte e interrupção de alguém, ou até mesmo a desilusão de não ser aceita.

Na adolescência, continuou com as fantasias infantis, transformando em um amor platônico por esse menino. Um amor seguido de invenções, com o intuito de obter o prazer e a satisfação daquela cena primordial com o pai.

Esse amor que essa garotinha sentia, passou da fantasia para uma ordem real, ou ainda dissociativa. Moldou uma história em que o amor entre os dois seria proibido, e que tinha sempre a mãe desse menino que interrompia a história e impedia deles ficarem juntos.

Mesmo não ter ficado realmente com esse menino, tinha-se o gozo nessas fantasias. Com o passar dos anos, essa história que era real para ela, começou a ficar confusa, e o que era da fantasia, já estava se confundindo com a realidade. Ou seja, o que houve foi uma remontagem da perda do objeto.

Freud em luto e melancolia, destaca que o conflito pode ser tão intenso, que ocorre um afastamento da realidade e uma adesão ao objeto por meio de uma psicose alucinatória de desejo.

Como suportar e aceitar que a história que foi construída para se proteger da realidade dura de não ser aceita e desejada, possa ser só fruto da imaginação dessa menina já adolescente? Essa conexão de pensamentos foi tão agressiva na consciência, foi tão dolorida que por momentos, por não saber lidar, e por vergonha e culpa, houve tentativas de acabar com tudo, inclusive com a própria vida. Pois que sentido teria à vida, se a história fantasiada era a única que a mantia viva? A única forma de ter a sensação de prazer e satisfação, era na fantasia. Era apenas repetir o que houve com o pai. E, para evitar a mesma sensação de vergonha, culpa, desprezo e de não ser aceita pelo outro, era investir a libido na fantasia para obter o gozo.

Houve ajuda de uma psicóloga que passou acompanhar essa adolescente. Nesse momento, tudo voltou a se estabilizar, o que antes acontecia somente no imaginário dela, passou a ser dividido com um outro e ter um sentido mais real. A cada semana, o prazer e a satisfação de contar as novidades envolvendo o possível namoro e a interrupção da mãe do adolescente que ela gostava, era confundido com a melhora dos sintomas físicos e psíquico. Obtia gozo no discurso, pois apesar de adoecer em certos quesitos, tinha-se o gozo de ser amada na dor. Ou seja, “pode ter alguém interrompendo o possível namoro, mas tem alguém que me ama”. O discurso era de uma estrutura organizada, nada denunciava que a história só acontecia na imaginação da adolescente.

No entanto, o sintoma foi um substituto de alguma coisa que não aconteceu na cena primeira com o pai. Ou seja, onde não se realizou o primeiro desejo, realizou um gozo na fantasia. O gozo de fantasiar, de contar ao outro o que aquela criança clamava, que era ser amada. Encarar a realidade nesse momento, era árduo. Era mais fácil gastar energia contanto o que se imaginava, do que se deparar com o real, com a interdição, ou seja, a castração.

Por não suportar mais essa história, de amar e não poder ser correspondida, a adolescente matou essa história. Exatamente! Matou o adolescente na imaginação dela. Eis a seguinte história fantasiada: “a mãe do rapaz ameaçou a menina a não chegar perto do filho. Que preferiria ver o filho morto do que com ela. A mãe matou o filho”. Nesse dia, essa adolescente foi ao local de trabalho da psicóloga aos prantos, e sem conseguir falar”. Aquela fala fazia cheia de tudo, denunciava uma mistura do real e da fantasia. Com muito trabalho, conseguiu verbalizar que a mãe dele o matou. Com a investigação dos profissionais envolvidos no atendimento, eis a descoberta de que o fato não tinha acontecido.

Três anos depois, a adolescente a caminho da faculdade se deparou com um episódio dissociativo: a mãe do rapaz a seguiu e a ameaçou para que parasse de se encontrar com o filho dela. Nessa época a adolescente já tinha um namorado, e lembrou que não tinha porque receber as ameaças, porque não tinha contato com o rapaz. Mas o ocorrido foi tão real, que confundia. Foi onde ficou em choque. Será que realmente isso aconteceu? Ela chegou na sala de aula sem a fala e totalmente perturbada. Surgiram sentimentos de medo de enlouquecer, angústia e tristeza extrema. Digo isto com total convicção de que era exatamente assim que ela estava se sentindo, porque essa é a minha história. Tudo isso aconteceu comigo.

Perante o conflito com o que era do real e o que era da fantasia, houve uma dissociação. Que ao me deparar com o que estava acontecendo de fato, me vi desestruturada. Busquei ajuda, e, atualmente busco compreender por que estendi essa fantasia por 12 anos e o que me fez levar a história até aquele ponto. Penso que algumas questões estão claras: eu era uma menina que queria ser amada e desejada, que perante a primeira perda, a única reação foi de sair de cena e fantasiar uma história com o meu amor primeiro, que foi o pai. Posteriormente, o objeto substituto, tinha que parecer com o primeiro objeto de amor, ou seja, a história se repetiu com a interdição de uma outra mãe que matou o filho. Assim como essa primeira mãe, que “matou” os meus desejos e fantasias com o pai. Ao invés de encarar e tentar um namoro com esse adolescente, foi melhor fantasiar, pois na fantasia não haveria risco da perda, nesse lugar a gente comanda a história que lhe é devida.

Freud discorre no texto de referência, que a melancolia é comparada ao afeto normal do luto. Que o luto sofre uma perda no objeto, já na melancolia, surge uma perda no ego. No entanto, o luto não elaborado da primeira morte do objeto de amor, transformou-se em melancolia, deslocada na fantasia da natureza psíquica. Eu fantasiei um lugar onde ninguém poderia atrapalhar aquela sensação primeira de prazer com o objeto de amor.

Talvez eu não queria passar pela frustração de ser rejeitada. E talvez, eu matei essa história para não me matar. Talvez, viver no mundo da fantasia, já não era mais cabível. E talvez, foi uma forma de manifestar, o quanto esse pai foi importante e amado.

A perda da fala, manifesta nesse trabalho, pode-se articular com a minha perda de reação ao encarar as interdições relacionada com o objeto em questão. Enfim, o meu sintoma teve um sentido.

Penso que ter compreendido uma parte do que fez eu ter essa dissociação e poder escrever algo, já é um ganho essencial. E tenho total consciência de que não vou ter acesso ao real dos fatos: o que foi fantasia e o que aconteceu por 12 anos. O que posso administrar é o luto dessa história primeira, pois sabendo compreender essa primeira perda, é que vou conseguir administrar os lutos futuros. E eu prefiro dispor em meu discurso sempre um talvez, porque se hoje estou segura de falar sobre essa história, é porque fez sentido pra mim, e o sentido do sintoma é o que importa. Porque creio que não se trata de ter perdido o objeto de amor substituto na adolescência, mas o que eu perdi nele, que foi uma atenção, o amor... que no fundo é aquele amor primordial que não foi experienciado.