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ANA PAULA MAZZUCOPsicologia • Psicanálise
Capa do livro O tragicômico social representado no discurso histérico, de Ana Paula Mazzuco
Capa da obra

Escritos • Poesia

O tragicômico social representado no discurso histérico

a insatisfação do sujeito ligada ao saber e ao semblante das fake news

Ana Paula Mazzuco

Mencionando o filme “Quero ser JOHN MALKOVICH” e relacionando aos tempos em que estamos vivenciando, compreende-se que o lugar do saber está no semblante da informação. Os sujeitos, diante da insatisfação na cultura, buscam satisfazer-se com saberes que conseguem suportar. O que é enunciado pelo outro, que opera uma máquina e espalha informações de maneira “fantasiosa” ou “horrorosa”, não importa. O importante é que o sujeito se sinta “amparado” e aliviado.

A maneira como o sujeito digere essas informações é individual, subjetivo. Portanto, o enfrentamento diante do horror pode ser encarado pelo sujeito de uma forma cômica ou de abstração destas informações através do negacionismo. Ambos são um modo leve de encarar a realidade tão intensa para o sujeito.

As fake news ligadas ao tragicômico ocupam um lugar de arte e de enunciado em que a verdade é repassada de uma maneira possível de ser aceita pelo sujeito. O mesmo necessita entender e escutar dentro de suas possibilidades psíquicas.

As informações estão expostas para a massa ter acesso. Ao mesmo tempo, o poder das informações está nas mídias e nas mãos da “elite” que as controlam. Sendo assim, pensa-se na possível alienação que a mídia pode provocar ao moldar as informações de forma mais “leve” para serem melhor aceitas pelos sujeitos. É o que, atualmente, pode-se observar nos episódios “Corona Alívio”, “Fique em casa com Marcelo Adnet”. Neste último, conta-se episódios trágicos de maneira cômica, envolvendo o presidente atual e a pandemia que vivenciamos. Na obra de Freud, “O mal estar na cultura”, são mencionadas as ameaças do sofrer do sujeito. Pode-se articular com o momento atual em que o sofrer é inevitável. O mundo externo e as informações estão imperando de forma devastadora e influenciando nas relações de modo a pôr o sujeito a trabalho para saber das suas limitações, ou seja, aponta-se o lugar da fala como uma possível saída para o enfrentamento atual.

Segundo Nietzsche, “A arte existe para que a verdade não nos destrua”. A essa menção, denota-se o quanto o sujeito precisa sair de sua realidade para poder suportar o seu mal estar na cultura. Malkovich seria essa arte, essa representação. O próprio Malkovich foi um ator. Deixava de ser ele, deixava de demonstrar sua verdade como sujeito do seu inconsciente. A concepção que as pessoas tinham de Malkovich, articula-se ao pai da horda, ou seja, o que goza de tudo e que tinha acesso ao que as pessoas imaginariam ter.

Ter acesso à verdade de Malkovich é ter acesso à própria verdade do sujeito, ou seja, estar na mente do ator é estar frente ao Outro imaginário. A ideia falsa de estar em um outro corpo, onde o sujeito poderia se satisfazer, cai por terra. Pois, pensando na vida de Malkovich, antes dos personagens ocuparem o corpo do ator, a mesma era monótona: ouvia suas peças teatrais deitado em um sofá através de um gravador. Precisou que esses personagens entrassem em cena para dar uma “guinada” em sua vida. Ou seja, todos queriam ser o que John representava no imaginário de cada um e não o que ele era.

As informações foram repassadas para as pessoas de maneira fantasiosa, vendendo felicidade de forma enganadora, pois quem ocupava o corpo de Malkovich e dava outro sentido à vida do próprio era a pessoa que aceitou estar em outra pele sendo ela própria. No entanto, desejar a vida do outro motivado pela sua própria insatisfação é o movimento do discurso histérico. Pois os sujeitos se apresentam em falta, no entanto, direcionam-se ao semblante de Malkovich como uma saída imaginária para obter a felicidade almejada. Neste sentido, por que não se pode pensar na questão reinvenção de si? Por que, em vez do sujeito se questionar sobre as suas insatisfações, se direciona para algo fantasioso? Esse gozo, no lugar da verdade sobre si, é característica do discurso histérico, como já cantava Cazuza, “mentiras sinceras me interessam”. Articulando com a era das fake news, o lugar do discurso histérico é a produção e elaboração de suas angústias para um possível enfrentamento diante das informações que sempre serão faltosas, pois a produção de uma verdade exclusiva não existe, assim como a felicidade única. E, o dar-se conta disso, é se colocar a trabalho para a busca da satisfação cada sujeito.

No caso de Craig, obteve sucesso no corpo de John, com suas marionetes. Nesse caso quem é o fake? O talento é de Craig, mas a imagem é de John. Essa ideia de completude que leva o sujeito ao impedimento de crescer psiquicamente, é demonstrado no filme. O objetivo de Craig não se sustentou até o final da trama por simplesmente buscar ter tudo e não querer abrir mão de nada. Há cada escolha há uma renúncia. O sentido de estar em falta foi o que faltou nesse personagem. O que acontece com as informações atuais não é diferente. O sujeito que não suporta estar em falta de informações ancora-se, sem hesitar, na informação que lhe é oferecida de forma a não desejar buscar. Qual a verdade mais aceita por mim? A mais engraçada? Trágica? Enfim, as informações, sendo elas fake ou não, estão aí para serem consumidas pelo sujeito, mesmo que elas sirvam para fantasiar uma realidade insuportável, é preciso sobreviver diante da guerra interna e externa.

Autoria

Ana Paula Mazzuco, Psicóloga (CRP 12/16260), associada AMPSC.

Currículo Lattes

@anapaulamazzuco04